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quinta-feira, dezembro 13, 2007

são francisco, olhai por nós...

senhor

fazei-me um instrumento da vossa paz
onde houver ódio, que eu leve o amor
onde houver ofensa, que eu leve o perdão
onde houver discórdia, que eu leve a união
onde houver dúvidas, que eu leve a fé

onde houver erro, que eu leve a verdade
onde houver desespero, que eu leve a esperança
onde houver tristeza, que eu leve a alegria
onde houver trevas, que eu leve a luz

ó mestre
fazei que eu procure mais
consolar, que ser consolado
compreender, que ser compreendido
amar, que ser amado

pois é dando que se recebe
é perdoando que se é perdoado
e é morrendo que se vive
para a vida eterna


seria atrevimento demais acrescentar versos à célebre oração?

senhor,
onde houver intransigência, que se leve tolerância
onde houver ignorância, que se leve informação
onde houver fome, que se leve comida
onde houver sede, que se leve água


confesso que, apesar de ainda manter a mente aberta para ouvir e avaliar argumentos contrários, até o momento estou convencida dos benefícios da transposição do rio são francisco. mas mesmo que não estivesse, mesmo que estivesse convictamente do outro lado, jamais eu concordaria com o ato extremo com que o frei luiz flávio cappio vem chamando atenção para sua causa – e impondo ao governo uma chantagem descabida. isso eu acho indiscutivelmente absurdo!

peço a deus que ilumine esse homem, em cujas boas intenções eu posso até acreditar, a perceber que seu autoflagelo em nome de um suposto "bem maior" vem carregado de prepotência e irresponsabilidade, além de ser um atentado à democracia que tão custosamente temos construído.

...

ps: leia aqui o artigo "que não morra o bispo, nem o rio", do sociólogo luis alberto gómez de sousa, talvez o mais lúcido dos escritos sobre o assunto que me chegou às mãos nos últimos dias.

quinta-feira, novembro 15, 2007

Movimento dos Sem-Mídia [II]



Já postei aqui antes sobre o Movimento dos Sem-Mídia. Depois da repercussão obtida pela manifestação que mostrei no post, o MSM organizou uma Assembléia, aberta a todos os interessados e amplamente divulgada pela internet, na qual foi redigido e aprovado um Estatuto Social que oficializa o Movimento como "uma associação da sociedade civil, de direito privado, sem fins lucrativos ou econômicos, de natureza democrática e pluralista", que tem como proposta desenvolver "atividades através de seus dirigentes e associados, sempre de forma pacífica e respeitando os princípios do Estado Democrático de Direito, em defesa e incentivo de uma mídia livre, plural, ética e imparcial, visando a formação e desenvolvimento de cidadãos conscientes e participativos."

No último dia 10, o MSM organizou outra manifestação, desta vez em frente à sede paulista da Rede Globo, e a intenção é promover cada vez mais, em diversas cidades do país. Como também ressaltei no primeiro post, o MSM é um movimento apartidário e desideologizado. Ele não reivindica que a mídia páre de dizer o que diz, apenas que ela dê voz igual ao que não vêm sendo dito, ao longo de muitos anos, em nome de interesses privados, e assim dê chance para que cada cidadão tenha condições de formar sua propria opinião.

Eu apóio o Movimento e me filiei a ele. Deixo aqui o convite para que todos conheçam mais sobre o MSM – seja visitando o blog Cidadania.com, seja entrando na lista de discussões no yahoogroups, seja participando da comunidade no orkut. O convite é para que conheçam, mas a esperança é de que abracem a causa e a divulguem. Afinal, a participação de cada cidadão é de importância fundamental, e este é o momento certo para aproveitarmos a oportunidade e promovermos o debate e a troca de notícias, perguntas e idéias sobre a questão da mídia no Brasil.

Update:
Reproduzo abaixo um cordel com o qual me deparei na comunidade do MSM no orkut, algumas horas após a postagem deste. É grande, mas creiam-me, vale a pena, é sensacional:

Deixa que a mídia eu balanço!
P. da Silva (vulgo Genésio dos Santos, janeiro/2007)

Para deleite da elite
que torce o nariz pro Lula
eis que quase toda a mídia
tá deixando a esquerda fula
que ora parte pro ataque
ora se encolhe e se anula.

No que agora me compete
abordar neste repente
apresento-te um cordel
pois entendo ser urgente
que dos informes da mídia
ninguém de nós se alimente.

Compreende que é por gosto
que nesta viagem me lanço!
O meu combate é com trovas
E rimas... E não me canso!
Zela por nosso governo!
Deixa que a mídia eu balanço!

Vejo as manchetes do dia
na internet ou nos jornais
por falta de conteúdo
o gosto é de "quero mais!"
e à procura de notícias
tô sempre correndo atrás.

É preciso informação
e isso eu não dispenso
mas aguço meus sentidos
neste nevoeiro denso
primeiro eu faço um filtro
e só depois me convenço.

As notícias que procuro
são do governo de agora
que após quinhentos anos
chutou a elite pra fora
só que isso tem um custo
e por isso a mídia chora.

Pois se a vitória foi nossa
e nisso eu acredito
o que precisa ser feito
é governar bem bonito
e sempre a favor dos pobres.
É isso aí, tenho dito!

Entre esquerdas e direita
já escolhi o meu caminho
mesmo que nesta jornada
por vezes eu vá sozinho
mas ninguém vai colocar
no meu guisado um espinho.

Quem a mídia representa?
Tu ousarias dizer?
Claro que a esta pergunta
nós sabemos responder!
A mídia é representante
dos que detêm o poder.

Na vida capitalista
seja de que ramo for
representa o consumismo
representa o explorador
representa o latifúndio
representa o mais-valor;

representa o patrãozinho,
o coronel, o feitor,
representa o industrial
quase sempre o opressor
só não representa o braço
do povo trabalhador;

e no ramo financeiro
de olho no ervanário
faz mesuras ao banqueiro
se rende ao seu ideário
e em hipótese alguma
tá do lado do bancário.

É só folhear os jornais
tomando muito cuidado
interpretar propaganda
cotejar classificado
que se nota com certeza
da mídia qual é o lado.

É o de quem compra o espaço
que é vendido, e não dado.
é o dos donos de negócios
que convivem lado a lado
com os especuladores
que manipulam o mercado.

A mídia assim representa
pretendo aqui relatar
fatia da burguesia
que vive a se lamentar
com vaga certa em marina
campo de golfe ou hangar;

mora em mansões com guarita
para a miséria afrontar
e freqüenta heliporto
pra todo dia voar
sem ter que uma lotação,
busão ou trem enfrentar;

ou se fecha em condomínios
com muitas suítes no apê
muitos carros na garagem
tevê a cabo, devedê...
com quartos pra criadagem
que sempre está à mercê

das ordens do sinhozinho
da casa grande moderna
que não quer ser contrariada
não quer choro nem baderna
para com isso manter
essa escravidão eterna.

É assim que ela chafurda
na lama de um atoleiro
é uma troca de favores
tudo feito por dinheiro
além de me causar asco
também provoca mau-cheiro.

Na campanha eleitoral
foi pau para o nosso lado
tá certo, eu admito
que uns possam ter errado
mas quem atirava as pedras
fingia não ter pecado.

Foi mote da oposição
"tá na mídia, tá nos autos!"
aos petistas e aliados
soluços e sobressaltos
e a mídia se esbaldando
engabelando os incautos.

Desculpa se no cordel
eu faço caricatura!
Mas pra conquistar espaço
nesta quase-ditadura
dos que têm tudo na vida
contra os que roem rapadura

tenho que ser bem direto
ao enfocar o problema
e ao meter a colher
procuro não ter dilema
não serei eu, cinqüentão,
que vou dar mole ao sistema.

Por vezes um colunista
cacareja isenção
mas ao publicar seu texto
e aí tomar posição,
esta, invariavelmente,
coincide com a do patrão.

Dá um cacete no Chávez
e o faz réu de muitos males,
dá rasteira no Ortega
e um pontapé no Morales,
dá um chega-pra-lá no Lula
e no Fidel... Nem me fales!

E diz estar defendendo
a tal da democracia
mas defende seus anéis
dia e noite, noite e dia
não quer perder a boquinha
de ganhar com a mais-valia.

Trata governante eleito
como se fosse gentinha
mesmo perdendo no voto
tenta impor a sua linha
e o cordelista pergunta:
Na bunada num vai dinha?

É assim que a mídia opera
na América Latina
desrespeitando eleitores
sempre de forma ferina
e mais, se dermos bobeira,
põe-se a agir na surdina.

E vai se comprometendo
na maior da cara-dura
co'a nata da burguesia
que ao se sentir insegura
passa a considerar
virtudes na ditadura.

Por isso deixo o recado
sem quebrar nenhuma rima
a quem dá pau no governo
e agindo assim se anima
fico co´os do andar de baixo
contra os do andar de cima.

Para aquele que foi pobre
e hoje é classe média
é bom que o governo Lula
nunca perca a sua rédea
senão a democracia
pode acabar em tragédia.

Para pôr fim à violência
que deixa a nação inquieta,
que ofereça ao cidadão
alternativa correta,
que a construção de presídios
não seja a única meta.

É bom que o governo Lula
invista em educação,
que obtenha resultados
no programa de inclusão
garantindo ao excluído
um teto, trabalho e pão.

Talvez se eu me concentrasse
noutra linha de argumento
para mostrar-te que a mídia
me causa aborrecimento
eu não fosse tão feliz
ao perseguir este intento.

Parece que já fui longe
Demais com este labor
Assim sendo me despeço
Saudando o trabalhador
Investindo no bordão:
Lula, é seu o andor!
Viajando neste cordel
A vida tem mais sabor.

quarta-feira, outubro 31, 2007

ao velho maia

(...)
as coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão

(c.d.a.)


hoje meu avô completaria 92 anos.

outro dia mesmo estávamos todos empolgados organizando a festa de noventa anos do maia. todos sabíamos que era já uma data digna de comemoração, mas duvido que alguém olhasse pra ele e sequer imaginasse que em dois anos ele não estaria mais aqui. ele próprio sugeriu, quando estávamos decidindo o destino da bebida que sobrou: "guarda pra festa dos cem!"

apesar da consciência racional do caminho natural da vida, simplesmente não era possível conceber a vida sem o meu avô! como assim?, a vida é isso: tem o céu, o sol, a água, o ar, e tem meu avô, ora bolas, e eles sempre vão estar aqui, isso é indiscutível, é óbvio!

e é divinamente verdade! se antes eu dizia a pessoas que perderam alguém que quem se foi sempre estará por perto, eu dizia por pura fé. hoje eu posso dizer com a certeza da experiência vivida, pois eu não só sei ou acredito que meu avô está sempre comigo, eu efetivamente sinto isso, de uma forma inexplicável, porém inquestionável.

não foram poucos os ensinamentos e exemplos que recebi dele. não foi pouca a influência dele na minha formação, no meu caráter, nos meus valores, no meu senso de humor e em tantas coisas mais. esse homem extraordinário, de quem tive a sorte de ser neta e com quem tive o privilégio de conviver por 31 anos, não poderia ter "ido embora" de outra forma.

o pássaro das asas cansadas se recolheu para repousar e fazer versos em companhia das estrelas que gostava de ouvir. mas até na sua despedida não deixou de ser generoso e poeta. e como eu posso me entristecer, se continuo escutando, aqui dentro, aquela risada tão dele que eu nunca vou esquecer? ouço sua voz, sinto ele por perto e, pra ser sincera, acho que ele continua aprontando suas graças.

que outra explicação teria pra justo hoje, enquanto eu andava a caminho do serviço, olhando para o céu e pensando nele, eu ver um miquinho brincando num poste??? um mico! todo serelepe e mó à vontade no meio daquela fiarada toda? só sei que nessa hora eu dei uma risada e esqueci de ficar triste...

segunda-feira, outubro 22, 2007

a palavra


...Sim Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam... Prosterno-me diante delas... Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as... Amo tanto as palavras... As inesperadas... As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem... Vocábulos amados... Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho... Persigo algumas palavras... São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema... Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais, oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas... E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as... Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda... Tudo está na palavra... Uma idéia inteira muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que não a esperava e que a obedeceu... Têm sombra, transparência, peso, plumas, pêlos, têm tudo o que se lhes foi agregando de tanto vagar pelo rio, de tanto transmigrar de pátria, de tanto ser raízes... São antiqüíssimas e recentíssimas. Vivem no féretro escondido e na flor apenas desabrochada... Que bom idioma o meu, que boa língua herdamos dos conquistadores torvos... Estes andavam a passos largos pelas tremendas cordilheiras, pelas Américas encrespadas, buscando batatas, butifarras, feijõezinhos, tabaco negro, ouro, milho, ovos fritos, com aquele apetite voraz que nunca mais se viu no mundo ... Tragavam tudo: religiões, pirâmides, tribos, idolatrias iguais às que eles traziam em suas grandes bolsas... Por onde passavam a terra ficava arrasada... Mas caíam das botas dos bárbaros, das barbas, dos elmos, das ferraduras. Como pedrinhas, as palavras luminosas que permaneceram aqui resplandecentes... o idioma. Saímos perdendo... Saímos ganhando... Levaram o ouro e nos deixaram o ouro... Levaram tudo e nos deixaram tudo... Deixaram-nos as palavras.

(pablo neruda)

domingo, setembro 30, 2007

ora (direis) ouvir estrelas!



"ora (direis) ouvir estrelas! certo
perdeste o senso!" e eu vos direi, no entanto,
que, para ouvi-las, muita vez desperto
e abro as janelas, pálido de espanto...

e conversamos toda a noite, enquanto
a via láctea, como um pálio aberto,
cintila. e, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
inda as procuro pelo céu deserto.

direis agora: "tresloucado amigo!
que conversas com elas? que sentido
tem o que dizem, quando estão contigo?"

e eu vos direi: "amai para entendê-las!
pois só quem ama pode ter ouvido
capaz de ouvir e de entender estrelas."

(olavo bilac)

[para o meu poeta maior, que há exatamente um mês parou de ouvir estrelas e se tornou uma delas.]

quarta-feira, agosto 30, 2006

amor feinho

eu quero amor feinho.
amor feinho não olha um pro outro.
uma vez encontrado, é igual fé,
não teologa mais.
duro de forte, o amor feinho é magro, doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.
tudo que não fala, faz.
planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.
amor feinho é bom porque não fica velho.
cuida do essencial; o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.
amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem é esperança:
eu quero amor feinho.
(adélia prado)