quinta-feira, março 06, 2008
quinta-feira, fevereiro 28, 2008
Todos juntos somos fortes!
Recebi por e-mail a proposta deste blog e declaro meu apoio total! Em solidariedade ao jornalista Luis Nassif, que tão bravamente tem denunciado inúmeros podres da revista Veja, a idéia é que todo blog inclua o link para http://luis.nassif.googlepages.com/home sempre que escrever em seu blog a palavra "Veja". Quanto mais gente fizer isso – assim, exatamente do mesmo jeito –, maior a probabilidade da denúncia do Nassif subir cada vez mais posições na lista das buscas por Veja no Google e nos demais mecanismos de busca. É a união dos pequenos revertendo a vantagem da popularidade do inimigo! Genial!
quarta-feira, janeiro 30, 2008
até que demorou...
acabo de receber o telefonema de uma firma de advocacia solicitando
gentilmente a retirada de um comentário neste post do meu blog fora, aécio! o comentário fazia acusações contra uma empresa cliente deles e, como ainda por cima era anônimo, aceitei sem discutir. mas deixei lá um aviso de que o comentário que estava ali antes tinha sido removido a pedido de uma empresa citada. e só.
será que um dia eu vou receber telefonema de donandréa? exconjuro!
quinta-feira, novembro 29, 2007
santa ceia, batman!

vi a imagem acima no blog do jens – link novo aí do lado, o incrível exército de blogoleone, vai lá –, que por sua vez catou no g1 (não merece bold, nem link, vai lá não).
na imagem, chávez, mao, fidel, marx e outros na mesma linha são os "apóstrofos" (sic) que compartilham com jesus a última ceia (que, note bem, é composta por livros! mas hein? te cuida, dan brown!).
foi bater o olho e me lembrar de quando eu era criança e freqüentava o catecismo na igreja de santa helena (por quê minha mãe não conhecia o frei cláudio naquela época, oh céus?). meu pai era do partidão, e eu, moleca, estava sempre com um adesivo na roupa e cantarolando "vote pcb que o pcb é legal, legal!". um dia eu fui adesivada pro catecismo, e até hoje sou zoada por isso...
mas o que marcou mesmo, pra mim, foi minha decepção (e confusão) quando me contaram que a igreja não gostava de jeito nenhum dos comunistas. já naquela época, uma dúvida começou a me atormentar e até hoje ninguém me respondeu satisfatoriamente: todos sabem que jesus disse "dai de comer a quem tem fome", mas onde raios ele falou "desde que não seja essa a prioridade do seu governo"???
tags: cidadania, links, política
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quarta-feira, novembro 28, 2007
quem fala o que quer, espeto de pau!
"Queremos brasileiros melhor educados, e não liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria."
(FHC, ex-presidente do Brasil, durante o congresso do PSDB, na semana passada)
"Obviamente que se comparar a educação, a formação intelectual do Fernando Henrique Cardoso, ele tem muito mais educação do que eu. É verdade que ele tem mais anos de escolaridade. Mas é verdade que eu sei governar melhor do que ele."
(Lula, presidente do Brasil, em entrevista à TV Record, ontem)
tags: entre aspas, política
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terça-feira, novembro 27, 2007
sexta-feira, novembro 23, 2007
uma frase
"Roland Barthes: 'o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer'. O professor francês morreu na década de 1980, mas seu pensamento está cada vez mais atual. Um exemplo aplicado ao jornalismo se dá quando um repórter pensa em usar uma palavra, ou uma construção, ou mesmo uma determinada fonte, mas desiste da idéia porque sabe que o editor impedirá que ele se manifeste daquela maneira. O repórter está obrigado a dizer algo e, pior, de determinado modo. Para Roland Barthes, trata-se de um controle fascista, sobretudo quando sustenta idéais fascistas."
(do blog fazendo media)
...
para quem, como eu, é daqueles que no colégio sempre levantava o braço e falava "fessor, dá um exemplo prático?", aqui tá cheio de exemplo prático. ;-)
quinta-feira, novembro 22, 2007
Só para comparar...
(eu postei este texto ontem no votolula, mas acho que merece um repeteco aqui)
Recebi hoje, pelo grupo do MSM, entre outros bons textos, dois que me chamaram atenção por serem exemplos opostos de ética jornalística.
O primeiro é o texto da postagem anterior, "Para compreender a força de Lula", em que o professor Ladislau Dowbor traça um panorama da questão da desigualdade social e das políticas públicas praticadas pelo governo Lula, baseando-se em números oficiais, com fontes não só citadas como linkadas, ou seja: acessíveis a qualquer leitor. Mais do que despejar números, Dowbor cruza dados e os contextualiza, o que confere credibilidade e coerência ao texto.
O segundo é um post do blog Logística e Transporte, em que o autor, o engenheiro José Augusto Valente, põe abaixo, com dados, fontes e links, qualquer credibilidade ou coerência que poderia ter um artigo publicado no Estadão de hoje. Com o título Sem ferrovias, rodovias, hidrovias e portos, o festival de irresponsabilidades pinta um quadro tétrico para o futuro do Brasil, baseando-se em "fatos" do presente tais como "as estradas estão em petição de miséria", "as ferrovias praticamente não existem" e "os portos continuam reféns das Docas politizadas". Tais afirmações, ao contrário dos argumentos de Valente, não vêm acompanhadas de nem uma única pistazinha que ajude o leitor a descobrir de onde elas saíram, o que me faz deduzir que a origem das mesmas é tão somente (para não dizer outra coisa...) o sovaco da jornalista. Convido todos a lerem os dois - o artigo no Estadão e a análise do engenheiro - e tirarem suas próprias conclusões.
E ouso fazer um pedido: mesmo não encontrando de imediato uma fonte tão precisa quanto as do blog do engenheiro, mantenha sempre um pé atrás com a grande mídia. Pergunte-se sempre de onde veio aquela informação, quem disse, quando, em que contexto, é comprovável? Se o artigo contiver palavras e expressões do tipo "supostamente", "hipótese", "não-confirmado" ou "documentos guardados a sete chaves", desconfie em dobro. Não serei leviana de dizer que a mídia mente sempre, mas que é bom checar antes de comprar gato por lebre, ah, disso eu não tenho a menor dúvida!
quinta-feira, novembro 15, 2007
Movimento dos Sem-Mídia [II]

Já postei aqui antes sobre o Movimento dos Sem-Mídia. Depois da repercussão obtida pela manifestação que mostrei no post, o MSM organizou uma Assembléia, aberta a todos os interessados e amplamente divulgada pela internet, na qual foi redigido e aprovado um Estatuto Social que oficializa o Movimento como "uma associação da sociedade civil, de direito privado, sem fins lucrativos ou econômicos, de natureza democrática e pluralista", que tem como proposta desenvolver "atividades através de seus dirigentes e associados, sempre de forma pacífica e respeitando os princípios do Estado Democrático de Direito, em defesa e incentivo de uma mídia livre, plural, ética e imparcial, visando a formação e desenvolvimento de cidadãos conscientes e participativos."
No último dia 10, o MSM organizou outra manifestação, desta vez em frente à sede paulista da Rede Globo, e a intenção é promover cada vez mais, em diversas cidades do país. Como também ressaltei no primeiro post, o MSM é um movimento apartidário e desideologizado. Ele não reivindica que a mídia páre de dizer o que diz, apenas que ela dê voz igual ao que não vêm sendo dito, ao longo de muitos anos, em nome de interesses privados, e assim dê chance para que cada cidadão tenha condições de formar sua propria opinião.
Eu apóio o Movimento e me filiei a ele. Deixo aqui o convite para que todos conheçam mais sobre o MSM – seja visitando o blog Cidadania.com, seja entrando na lista de discussões no yahoogroups, seja participando da comunidade no orkut. O convite é para que conheçam, mas a esperança é de que abracem a causa e a divulguem. Afinal, a participação de cada cidadão é de importância fundamental, e este é o momento certo para aproveitarmos a oportunidade e promovermos o debate e a troca de notícias, perguntas e idéias sobre a questão da mídia no Brasil.
Update:
Reproduzo abaixo um cordel com o qual me deparei na comunidade do MSM no orkut, algumas horas após a postagem deste. É grande, mas creiam-me, vale a pena, é sensacional:
Deixa que a mídia eu balanço!
P. da Silva (vulgo Genésio dos Santos, janeiro/2007)
Para deleite da elite
que torce o nariz pro Lula
eis que quase toda a mídia
tá deixando a esquerda fula
que ora parte pro ataque
ora se encolhe e se anula.
No que agora me compete
abordar neste repente
apresento-te um cordel
pois entendo ser urgente
que dos informes da mídia
ninguém de nós se alimente.
Compreende que é por gosto
que nesta viagem me lanço!
O meu combate é com trovas
E rimas... E não me canso!
Zela por nosso governo!
Deixa que a mídia eu balanço!
Vejo as manchetes do dia
na internet ou nos jornais
por falta de conteúdo
o gosto é de "quero mais!"
e à procura de notícias
tô sempre correndo atrás.
É preciso informação
e isso eu não dispenso
mas aguço meus sentidos
neste nevoeiro denso
primeiro eu faço um filtro
e só depois me convenço.
As notícias que procuro
são do governo de agora
que após quinhentos anos
chutou a elite pra fora
só que isso tem um custo
e por isso a mídia chora.
Pois se a vitória foi nossa
e nisso eu acredito
o que precisa ser feito
é governar bem bonito
e sempre a favor dos pobres.
É isso aí, tenho dito!
Entre esquerdas e direita
já escolhi o meu caminho
mesmo que nesta jornada
por vezes eu vá sozinho
mas ninguém vai colocar
no meu guisado um espinho.
Quem a mídia representa?
Tu ousarias dizer?
Claro que a esta pergunta
nós sabemos responder!
A mídia é representante
dos que detêm o poder.
Na vida capitalista
seja de que ramo for
representa o consumismo
representa o explorador
representa o latifúndio
representa o mais-valor;
representa o patrãozinho,
o coronel, o feitor,
representa o industrial
quase sempre o opressor
só não representa o braço
do povo trabalhador;
e no ramo financeiro
de olho no ervanário
faz mesuras ao banqueiro
se rende ao seu ideário
e em hipótese alguma
tá do lado do bancário.
É só folhear os jornais
tomando muito cuidado
interpretar propaganda
cotejar classificado
que se nota com certeza
da mídia qual é o lado.
É o de quem compra o espaço
que é vendido, e não dado.
é o dos donos de negócios
que convivem lado a lado
com os especuladores
que manipulam o mercado.
A mídia assim representa
pretendo aqui relatar
fatia da burguesia
que vive a se lamentar
com vaga certa em marina
campo de golfe ou hangar;
mora em mansões com guarita
para a miséria afrontar
e freqüenta heliporto
pra todo dia voar
sem ter que uma lotação,
busão ou trem enfrentar;
ou se fecha em condomínios
com muitas suítes no apê
muitos carros na garagem
tevê a cabo, devedê...
com quartos pra criadagem
que sempre está à mercê
das ordens do sinhozinho
da casa grande moderna
que não quer ser contrariada
não quer choro nem baderna
para com isso manter
essa escravidão eterna.
É assim que ela chafurda
na lama de um atoleiro
é uma troca de favores
tudo feito por dinheiro
além de me causar asco
também provoca mau-cheiro.
Na campanha eleitoral
foi pau para o nosso lado
tá certo, eu admito
que uns possam ter errado
mas quem atirava as pedras
fingia não ter pecado.
Foi mote da oposição
"tá na mídia, tá nos autos!"
aos petistas e aliados
soluços e sobressaltos
e a mídia se esbaldando
engabelando os incautos.
Desculpa se no cordel
eu faço caricatura!
Mas pra conquistar espaço
nesta quase-ditadura
dos que têm tudo na vida
contra os que roem rapadura
tenho que ser bem direto
ao enfocar o problema
e ao meter a colher
procuro não ter dilema
não serei eu, cinqüentão,
que vou dar mole ao sistema.
Por vezes um colunista
cacareja isenção
mas ao publicar seu texto
e aí tomar posição,
esta, invariavelmente,
coincide com a do patrão.
Dá um cacete no Chávez
e o faz réu de muitos males,
dá rasteira no Ortega
e um pontapé no Morales,
dá um chega-pra-lá no Lula
e no Fidel... Nem me fales!
E diz estar defendendo
a tal da democracia
mas defende seus anéis
dia e noite, noite e dia
não quer perder a boquinha
de ganhar com a mais-valia.
Trata governante eleito
como se fosse gentinha
mesmo perdendo no voto
tenta impor a sua linha
e o cordelista pergunta:
Na bunada num vai dinha?
É assim que a mídia opera
na América Latina
desrespeitando eleitores
sempre de forma ferina
e mais, se dermos bobeira,
põe-se a agir na surdina.
E vai se comprometendo
na maior da cara-dura
co'a nata da burguesia
que ao se sentir insegura
passa a considerar
virtudes na ditadura.
Por isso deixo o recado
sem quebrar nenhuma rima
a quem dá pau no governo
e agindo assim se anima
fico co´os do andar de baixo
contra os do andar de cima.
Para aquele que foi pobre
e hoje é classe média
é bom que o governo Lula
nunca perca a sua rédea
senão a democracia
pode acabar em tragédia.
Para pôr fim à violência
que deixa a nação inquieta,
que ofereça ao cidadão
alternativa correta,
que a construção de presídios
não seja a única meta.
É bom que o governo Lula
invista em educação,
que obtenha resultados
no programa de inclusão
garantindo ao excluído
um teto, trabalho e pão.
Talvez se eu me concentrasse
noutra linha de argumento
para mostrar-te que a mídia
me causa aborrecimento
eu não fosse tão feliz
ao perseguir este intento.
Parece que já fui longe
Demais com este labor
Assim sendo me despeço
Saudando o trabalhador
Investindo no bordão:
Lula, é seu o andor!
Viajando neste cordel
A vida tem mais sabor.
terça-feira, novembro 13, 2007
a voz do povo...
hoje eu ganhei meu dia de manhã cedo, e nem foi quando soube que vou emendar o feriado.
tive de vir de táxi. o motorista puxa conversa sobre o tempo, a chuva, os estragos em uberlândia e eu, como sempre, enquanto não me conformo que terei que conversar fico no "é..." "puxa!", "triste, né?". e ele continua, e fala da injustiça de enquanto isso o nordeste de minas estar sofrendo com a seca, aí o povo vem pra cá e acaba que os filhos se metem com o crime e tinha que dar um jeito de melhorar a vida deles por lá... e eu continuo só concordando, mas já com bem mais interesse.
daí ele mesmo fala: "eu não entendo! não tem o rio são francisco lá, um rio enorme? por quê não puxa água de lá, gente?" aí eu me aprumei, né? e disse que a coisa era complicada, que haviam estudos pra isso, mas tb havia muita gente contra, e que é difícil agradar a todos, tem que ser aprovado, negociado, adequado e talz. mas que o governo tem feito muita coisa, que realmente tem que combater o problema é na origem, não adianta só prender, essas coisas...
ele ficou pensativo um tempo, depois deu um suspiro: "sabe o que eu acho? esses político parece que não é brasileiro! não importa pra eles se uma idéia é boa pro país, importa só quem teve a idéia. se é de alguém que eles não gosta, faz de tudo pra derrubar! eu tb num gosto de governo não, mas eu tô vendo que a vida mudou de uns cinco anos pra cá! muita coisa tá melhor, e quando eles faz certo a gente tem que reconhecer também!"
(aleluia!!!)
e ainda nem acabou aí! logo antes de eu descer, o moço comentou sobre essa descoberta do petróleo e, espontaneamente, soltou: "mas tem uma mulher, uma tal de míriam leitão, que nossinhora, ela não consegue dar nem UMA notícia boa sem arranjar algum problema! ficou lá diminuindo a história, dizendo que não era pra ficar animado demais não que o trem só ia começar a render daí a uns sete anos... uai, se o governo fosse outro num ia demorar o mesmo tempo pra montar as coisa lá não?"
meu herói!
quase que eu pedi pra ele falar de novo pra eu filmar!
foi lindo. :-)
tags: cidadania, política, querido diário
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quarta-feira, novembro 07, 2007
também vai pegar você!
quanto mais penso e discuto sobre tropa de elite, mais eu percebo como ele é amarradinho nas suas sutis manipulações. não tão sutis quando se pára pra pensar, mas convenhamos, qual é a parcela da população que efetivamente pára pra pensar depois de um filme como esse, cheio de ação, imagens chocantes (ou "iradas"), palavrões e atos de (super)heroísmos de mocinhos detonando com bandidos?
não nego que eu gostei do filme quando vi (pirata, lógico). além do roteiro muito bem feito, pega também a sensação de pertencer a um grupo dos que foram "tocados pela denúncia". a intenção é que o espectador seja fisgado aí, e não perceba que a "grande denúncia" – contra traficantes pé-de-chinelo, policiais mal-pagos enfiados todos num mesmo saco e estereótipos de intelectuaizinhos de esquerda fumadores de maconha – não passa de uma grande cortina de fumaça (sem trocadilho).
já vinha pensando e dizendo isso há algum tempo quando recebi o artigo abaixo por e-mail. nele, o autor usa as palavras exatas que nem sempre eu encontrei pra explicar minha opinião. tropa de elite ainda tem uma chance de ter o mérito de possibilitar um grande e pertinente debate sobre os problemas da violência, da corrupção e do tráfico: se, e somente se, cada vez mais espectadores se permitirem a rebeldia de sair do papel para o qual foram designados e pensar, questionar, discutir.
não existe outro tipo de gente no mundo? não existem outras alternativas? por quê não discutir a desigualdade social como fator gerador de violência? por quê não discutir a legalização das drogas? por quê não discutir a investigação de quem tem realmente tem poder e grana pra continuar mantendo esse esquema? por quê o filme foge tanto dessas perguntas?
porque sou brasileira e não desisto nunca, reproduzo e repasso o artigo abaixo (os grifos são meus). se ele ajudar a sacudir as convicções de uma pessoa só que seja, já valeu a pena:
Tropa de elite: a criminalização da pobreza
(Ivan Pinheiro)
"Homem de preto.
Qual é sua missão?
É invadir favela.
E deixar corpo no chão"
(refrão do BOPE)
Não dá cair no papo furado de que "Tropa de Elite" é "arte pura" ou "obra aberta". Um filme sobre questões sociais não podia ser neutro. Trata-se de uma obra de arte objetivamente ideológica, de caráter fascista, que serve à criminalização e ao extermínio da pobreza. É possível até que os diretores subjetivamente não quisessem este resultado, mas apenas ganhar dinheiro, prestígio e, quem sabe, um Oscar. Vão jurar o resto da vida que não são de direita. Aliás, você conhece alguém no Brasil, ainda mais na área cultural, que se diga de direita? Como acredito mais em conspirações do que no acaso, não descarto a hipótese de o filme ter sido encomendado por setores conservadores. Estou curioso para saber quais foram os mecenas desta caríssima produção, que certamente foi financiada por incentivos fiscais.
O filme tem objetivos diferentes, para públicos diferentes. Para os proletários das comunidades carentes, o objetivo é botar mais medo ainda na "caveira" (o BOPE, os "homens de preto"). O vazamento escancarado das cópias piratas talvez seja, além de uma estratégia de marketing, parte de uma campanha ideológica. A pirataria é a única maneira de o filme ser visto pelos que não podem pagar os caros ingressos dos cinemas. Aliás, que cinemas? Não existe mais um cinema nos subúrbios, a não ser em shopping, que não é lugar de pobre freqüentar, até porque se sente excluído e discriminado.
No filme, os "caveiras" são invencíveis e imortais. O único que morre é porque "deu mole". Cometeu o erro de ir ao morro à paisana, para levar óculos para um menino pobre, em nome de um colega de tropa que estava identificado na área como policial. Resumo: foi fazer uma boa ação e acabou assassinado pelos bandidos.
Para as classes médias e altas, o objetivo do filme é conquistar mais simpatia para o BOPE, na luta dos "de cima", que moram embaixo, contra os "de baixo", que moram em cima. Os "homens de preto" são glamourizados, como abnegados e incorruptíveis. Apesar de bem intencionados e preocupados socialmente, são obrigados a torturar e assassinar a sangue frio, em "nosso nome". Para servir à "nossa sociedade", sacrificam a família, a saúde e os estudos. Nós lhes devemos tudo isso! Portanto, precisam ser impunes. Você já viu algum "caveira" ser processado e julgado por tortura ou assassinato? "Caveira" não tem nome, a não ser no filme. A "Caveira" é uma instituição, impessoal, quase secreta.
Há várias cenas para justificar a tortura como "um mal necessário". Em todas, o resultado é positivo para os torturadores, ou seja, os torturados não resistem e "cagüetam" os procurados, que são pegos e mortos, com requintes de crueldade. Fica outra mensagem: sem aquelas torturas, o resultado era impossível.
Tudo é feito para nos sentirmos numa verdadeira guerra, do bem contra o mal. É impossível não nos remetermos ao Iraque ou à Palestina: na guerra, quase tudo é permitido. À certa altura, afirma o narrador, orgulhoso: "nem no exército de Israel há soldados iguais aos do BOPE".
Para quem mora no Rio, é ridículo levar a sério as cenas em que os "rangers" sobem os morros, saindo do nada, se esgueirando pelas encostas e ruelas, sem que sejam percebidos pelos olheiros e fogueteiros das gangues do varejo de drogas! Esta manipulação cumpre o papel de torná-los ainda mais invencíveis e, ao mesmo tempo, de esconder o estigmatizado "Caveirão", dentro do qual, na vida real, eles sobem o morro, blindados. O "Caveirão", a maior marca do BOPE, não aparece no filme: os heróis não podem parecer covardes!
O filme procura desqualificar a polêmica ideológica com a esquerda, que responsabiliza as injustiças sociais como causa principal da violência e marginalidade. Para ridicularizar a defesa dos direitos humanos e escamotear a denúncia do capitalismo, os antagonistas da truculência policial são estudantes da PUC, "despojados de boutique", que se dão a alguns luxos, por não terem ainda chegado à maioridade burguesa.
Os protestos contra a violência retratados no filme são performances no estilo "viva rico", em que a burguesia e a pequena-burguesia vão para a orla pedir paz, como se fosse possível acabar com a violência com velas e roupas brancas, ou seja, como se tratasse de um problema moral ou cultural, e não social.
A burguesia passa incólume pelo filme, a não ser pela caricatura de seus filhos que, na Faculdade, fumam um baseado e discutem Foucault. Um personagem chamado "Baiano" (sutil preconceito) é a personificação do tráfico de drogas e de armas, como se não passasse de um desses meninos pobres, apenas mais espertos que os outros, que se fazem "Chefe do Morro" e que não chegam aos trinta anos de idade, simples varejistas de drogas e armas, produtos dos mais rentáveis do capitalismo contemporâneo. Nenhuma
menção a como as drogas e armas chegam às comunidades, distribuídas pelos grandes traficantes capitalistas, sempre impunes, longe das balas achadas e perdidas. E ainda responsabilizam os consumidores pela existência do tráfico de drogas, como se o sistema não tivesse nada a ver com isso!
O Estado burguês também passa incólume pelo filme. Nenhuma alusão à ausência do Estado nas comunidades carentes, principal causa do domínio do banditismo. Nenhuma denúncia de que lá falta tudo que sobra nos bairros ricos. No filme, corrupção é um soldado da PM tomar um chope de graça, para dar segurança a um bar. Aliás, o filme arrasa impiedosamente os policiais "não caveiras", generalizando-os como corruptos e covardes, principalmente os que ficam multando nossos carros e tolhendo nossas pequenas transgressões, ao invés de subirem o morro para matar bandido.
A grande sacada do filme é que o personagem ideológico principal não é o artista principal. Este, branco, é o que mais mata. Ironicamente, chama-se Nascimento. É um tipo patológico, messiânico, sanguinário, que manda um colega matar enquanto fala ao celular com a mulher sobre o nascimento do filho.
Mas para fazer a cabeça de todos os públicos, tanto os "de cima" como os "de baixo", o grande e verdadeiro herói da trama surge no final: Thiago, um jovem negro, pacato, criado numa comunidade pobre, que foi trabalhar na PM para custear seus estudos de Direito, louco para largar aquela vida e ser advogado. Como PM, foi um peixe fora d'água: incorruptível, respeitava as leis e os cidadãos. Generoso, foi ele quem comprou os óculos para dar para o menino míope. Sua entrada no BOPE não foi por vocação, mas por acaso.
Para ficar claro que não há solução fora da repressão e do extermínio e que não adianta criticar nem fazer passeata, pois "guerra é guerra", nosso novo herói se transforma no mais cruel dos "caveiras" da tropa da elite, a ponto de dar o tiro de misericórdia no varejista "Baiano", depois que este foi torturado, dominado e imobilizado. Para não parecer uma guerra de brancos ricos contra negros pobres, mas do bem contra o mal, o nosso herói é um "caveira" negro, que mata um bandido "baiano", de sua própria classe, num ritual macabro para sinalizar uma possibilidade de "mobilidade social", para usar uma expressão cretina dos entusiastas das "políticas compensatórias".
A fascistização é um fenômeno que vem sendo impulsionado pelo imperialismo em escala mundial. A pretexto da luta contra o terrorismo, criminalizam-se governos, líderes, povos, países, religiões, raças, culturas, ideologias, camadas sociais.
Em qualquer país em que "Tropa de Elite" passar, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, o filme estará contribuindo para que a sociedade se torne mais fascista e mais intolerante com os negros, os imigrantes de países periféricos e delinqüentes de baixa renda.
No Brasil, a mídia burguesa há muito tempo trabalha a idéia de que estamos numa verdadeira guerra, fazendo sutilmente a apologia da repressão. Sentimos isso de perto. Quantas vezes já vimos pessoas nas ruas querendo linchar um ladrão amador, pego roubando alguma coisa de alguém? Quantas vezes ouvimos, até de trabalhadores, que "bandido tem que morrer"?
Se não reagirmos, daqui a pouco a classe média vai para as ruas pedir mais BOPE e menos direitos humanos e, de novo, fazer o jogo da burguesia, que quer exterminar os pobres, que só criam problemas e ainda por cima não contam na sociedade de consumo. Daqui a pouco, as milícias particulares vão se espalhar pelo país, inspiradas nos heróicos "homens de preto", num perigoso processo de privatização da segurança pública e da justiça. Não nos esqueçamos do modelo da "matriz": hoje, os mais sanguinários soldados americanos no Iraque são mercenários recrutados por empresas particulares de segurança, não sujeitos a regulamentos e códigos militares.
Parafraseando Bertolt Brecht, depois vai sobrar para nós, que teimamos em lutar contra o fascismo e a barbárie, sonhando com um mundo justo e fraterno. A trilha sonora do filme já avisou:
"Tropa de Elite,
Osso duro de roer,
Pega um, pega geral.
Também vai pegar você!"
quarta-feira, outubro 03, 2007
tá nervoso, vai pescar!
"Olha. Eu sou a pessoa menos adequada para falar desse assunto, até porque desconheço, não tem qualquer relação comigo. Não tenho a falar com isso, você vai encontrar outras pessoas mais qualificadas para falar sobre isso, querida. Eu fui governador em 2002 e 2006 e por estas campanhas eu respondo."
(Aécio Neves, em tom ríspido, ao ser questionado por jornalistas se teme que a investigação do tucanoduto mineiro respingue em sua carreira.)
Leia mais aqui.
tags: entre aspas, links, política
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domingo, setembro 23, 2007
Movimento dos Sem-Mídia
Que sociedade é essa em que alguns homens e mulheres perdem sempre, no que toca o embate de idéias sobre as grandes questões nacionais, sobre os rumos que o país deve tomar ou manter? É uma sociedade em que sempre perdi sem nem poder lutar. Uma sociedade em que a derrota já vige antes da peleja. Uma sociedade em que os poderosos barões da mídia debatem sem antagonista.
Em dado momento, refletindo sobre o esmagamento das divergências, sobre a fabricação dos consensos midiáticos no que tange a política, a economia, os costumes, o entretenimento, veio-me à mente uma imagem, a imagem de brasileiros e brasileiras que, cansados de vegetar à beira das estradas, cansados de não poderem exercer sua vocação ancestral para a agricultura por falta de terra, resolveram não mais se conformar com a condição de sem-terra num país em que ela há em profusão e não pode ser semeada porque constitui reserva de valor de latifundiários. Estes cidadãos não têm terra, e cidadãos como eu, cheios de idéias e opiniões legítimas, não temos espaço, nos latifúndios midiáticos, para semearmos nossos pontos de vista. Somos, pois, sem-mídia.
Esse é um trecho do artigo escrito pelo Eduardo Guimarães sobre como nasceu o Movimento dos Sem-Mídia - MSM, idealizado por ele, que começou a se concretizar no último dia 15 de setembro, quando mais de 100 pessoas se concentraram na porta do jornal Folha de São Paulo, onde entregaram (e protocolaram) uma cópia do Manifesto do Movimento.
Veja a seguir a reportagem do Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim, sobre a manifestação:
Apesar da óbvia falta de divulgação pelos grandes meios de comunicação, a iniciativa recebeu tantas mensagens de apoio que acabou sendo o pontapé inicial para a legalização do Movimento. Estão sendo cadastrados e-mails de simpatizantes e organizada uma assembléia, para se definir um estatuto e as melhores estratégias de ação. Enfim, a história completa, detalhada e atualizada é grande, e você pode ler lá no blog do Eduardo. (Sugiro voltar nos arquivos até as vésperas do dia 15, quando houve a manifestação.)
Ao contrário de que possa parecer a muitos - principalmente se/quando os "com-mídia" resolverem se manifestar sobre o MSM - o Movimento luta "por um jornalismo limpo, plural, fidedigno, apartidário e desideologizado." O grifo é meu.
Eu, Clarice, tenho minha posição política e minha ideologia, e elas são muito claras em dois de meus blogs, o Votolula e o Fora, Aécio!. Por elas, eu luto neles. Mas não são elas as principais razões para eu assinar e divulgar esse Movimento. Eu, como cidadã, acredito que o acesso a informações isentas e completas é fundamental para o fortalecimento da democracia em sua essência, ou seja, da soberania do POVO, e não de poucos que se apropriam de sua voz.
E você?
(eu sei, post igual nos três blogs. considerei esse assunto sério o bastante para merecer essa distinção)
quarta-feira, agosto 09, 2006
respeito à soberania cubana
(texto de moacyr scliar, na carta maior, que diz exatamente o que eu penso)
"Democracia & discursos
O regime castrista é um conjunto de erros e acertos, estes últimos referindo-se, sobretudo, à saúde, à educação e ao amparo social. Quem deve decidir o que é erro e o que é acerto é a população, que, a propósito, vai aprendendo com o processo democrático.
Em Cuba, vi Fidel Castro algumas vezes na televisão. Quando ele aparecia a programação da emissora estatal ia para o espaço, sobretudo porque ele falava horas a fio, um hábito que cultivou ao longo de muitos anos e que se revelava muito pior nos comícios, nos quais as pessoas ficavam de pé e, às vezes, desmaiavam por causa do calor. Fidel Castro aparentemente nunca deu importância para a duração de seus discursos. Dispunha do tempo de seus ouvintes como bem entendia.
Coisa de ditador? Muita gente achará que sim, que este é o termo a ser aplicado ao governante cubano: é o que faz, por exemplo, a Folha de S.Paulo. E há argumentos para isto: afinal, Castro está no poder há décadas. Mas nem todos vêem nele um ditador, mesmo em Cuba ou, talvez, principalmente em Cuba: o médico cujo trabalho, a meu pedido, acompanhei por um dia inteiro, no posto de saúde e na visita aos pacientes, referia-se a Castro como "nuestro comandante". Outro comandante, aliás, ele não conhecera: muito jovem, sempre vivera sob o regime castrista. Pelo qual tinha enorme admiração, apesar das dificuldades que enfrentava para cumprir sua tarefa.
O termo ditador em geral evoca a figura de um tirano sinistro e cruel. Na tela da tevê cubana Fidel Castro não era isto. O que se via ali era um senhor idoso, paternal, que falava sobre os temas mais diversos, dando conselhos sobre como - entre outras coisas - ordenhar vacas. Não era um Pinochet. E, a propósito, não era o mafioso Fulgêncio Batista, que governou Cuba de 1933 a 1959. Ambos gozaram do beneplácito do governo norte-americano, sempre cioso em defender a democracia (quando interessa).
Democracia traduz-se em renovação de governantes, e isto não acontece em Cuba. A explicação clássica, oficial, é o hostil bloqueio por parte dos Estados Unidos - de novo, um erro, cuja principal motivação é contentar os exilados cubanos em Miami. Seja como for, em todos estes anos, Cuba nunca esteve tão perto de uma mudança. Se e quando esta ocorrer, o desafio principal será não jogar fora a criança com a água do banho. O regime castrista é um conjunto de erros e acertos, estes últimos referindo-se, sobretudo, à saúde, à educação e ao amparo social. Quem deve decidir o que é erro e o que é acerto é a população, que, a propósito, vai aprendendo com o processo democrático. Aproxima-se o dia em que mais gente falará na televisão cubana. Sem gastar três horas para fazê-lo."
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veja também (e assine!) o manifesto pelo respeito à soberania de Cuba.
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