"(...) Viera à luz recentemente uma nova obra sobre os limites da obrigação moral – um tema familiar, o qual sofrera uma reviravolta quando um grupo de filósofos resolveu argumentar que, em se tratando de moralidade, a ênfase devia recair não sobre o que fazemos, mas sobre o que deixamos de fazer. Era uma posição potencialmente severa, com implicações desagradáveis para quem procurava levar uma vida sossegada. Exigia mais vigilância e atenção às necessidades dos outros do que Isabel se sentia capaz. Também era uma posição inadequada para quem quisesse se esquecer de algo. Segundo tal ponto de vista, o ato de tirar determinada coisa da cabeça podia ser entendido como uma omissão deliberada e culpável."
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o livro da vez é "o clube filosófico dominical", de alexander mccall smith, que integra a sempre boa série policial da companhia das letras. o livro é bom, embora a pergunta que primeiro veio na minha cabeça – "mas um policial filosófico?" – realmente seja pertinente. eu adoro policiais, e nunca li um só dessa coleção que fosse ruim, mas posso dizer que achei esse um tanto quanto "deslocado", digamos assim. eu talvez não o publicasse nessa coleção.
o mote é a morte de um rapaz ao cair do balcão de um teatro. em sua queda, por um segundo seu olhar se cruza com o da filósofa isabel dalhousie, que se sente na obrigação moral de desvendar o que realmente aconteceu. mas praticamente não há polícia nesse policial, e o que acompanhamos é a investigação e as conjecturas de isabel em nome de uma responsabilidade ética que ela julga ter adquirido. apesar de o mistério a ser desvendado ser bem construído e prender a atenção, o grande barato do livro são as divagações filosóficas da personagem. confesso que isso me causou uma certa estranheza no início, talvez porque esperasse mais ação, mas depois que entrei no clima comecei a adorar!
ao longo da narrativa, isabel se vê diante de pequenos (ou não...) dilemas morais e/ou éticos, que a fazem pensar, sem prescindir do senso crítico e de suas próprias convicções, sobre o que disseram grandes filósofos a respeito do tema, abrindo questões interessantes que nem sempre se fecham. na verdade quase nunca, como na vida...
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o trecho que reproduzi acima foi um dos que me fez, tal como isabel, fechar por um instante o livro e os olhos e abrir a mente. não só pelo que diz, mas principalmente pelo que ME diz e pelo momento em que me diz. é curioso como muitas vezes recebemos recados valiosos dos lugares mais inesperados, como uma leitura despretenciosa para ajudar a esquecer o trânsito infernal do lado de fora do ônibus.
como se sentisse uma mão invisível me cutucando, seguida de um sussurro: "ei, você já pensou sobre isso? já tentou ver as coisas por esse lado?". obviamente, não adiantava procurar no ônibus pelo dono da voz sussurante, então fechei o livro e os olhos e fui procurá-lo no lugar mais provável. se achei respostas? não sei, mas acho que isso é o que menos importa... o fundamental é nunca deixar de formular perguntas.
sábado, dezembro 08, 2007
clube filosófico dominical
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sexta-feira, novembro 23, 2007
loteria
"Às vezes nós pensamos que as pessoas são como décimos da loteria: que estão aí para concretizar nossas absurdas ilusões."
(Isaac Monfort, personagem do livro A sombra do vento, de Carlos Ruiz Zafón)
talvez fosse mais impactante se essa fosse a quinta frase completa da página 161, mas é a 32ª da página 252, e mesmo sendo seguida de "– Isaac, com o devido respeito, o senhor bebeu como um gambá e não sabe o que diz.", a verdade é que é esse é o tipo de frase pra gente anotar no nosso caderninho como um lembrete para a vida. não só para deixarmos de depositar nossas absurdas ilusões nos outros, como também para lembrarmos que nós mesmos não somos décimos de loteria para ninguém...
tags: cultura, entre aspas, leituras
at 08:16 2 comments
sexta-feira, novembro 16, 2007
não quebre a corrente...
a lud convocou, eu cumpro:
1. Pegar o livro mais próximo.
Peguei. "A Sombra do vento", de Carlos Ruiz Zafón.
2. Abri-lo na página 161.
Hmpf. Eu ainda estou na 125, odeio spoiler, mas vamulá...
3. Procurar a 5ª frase completa.
achei.
4. Postar a frase no blog.
"sorriu-me com cordialidade e voltou para seu jornal, desinteressado."
5. Não escolher a melhor frase nem o melhor livro (usar o mais próximo)
então, os dois mais próximos mesmo eram o houaiss e uma gramática, mas esse não estava muito mais longe...
6. Repassar o desafio para cinco blogs
amanda
marcelo
pilar
pirata
sandro
7. O que você está achando desse livro?
lindo! extremamente bem escrita, a história se passa em barcelona, na época do pós-guerra, e acompanha o crescimento de um menino que, aos dez anos, foi levado pelo pai a um lugar secreto, o "cemitério dos livros esquecidos". seguindo uma espécie de ritual para quem entra lá pela primeira vez, o menino escolhe um livro (ou é escolhido por ele) e tem a missão de cuidar para que ele nunca desapareça. fascinado pela história, que devora em uma noite só, o menino sai em busca de outras obras do autor, e descobre que essa não é uma tarefa tão fácil quanto parece. acaba se deparando com histórias cheias de segredos e coisas que não devem ser ditas e se envolvendo em uma investigação digna dos melhores policiais, com direito até a um misterioso personagem que deseja a qualquer preço queimar seu livro, pelo visto o último exemplar da obra do desconhecido autor. Ao mesmo tempo, acompanhamos a transformação do menino em um homem, suas descobertas, frustrações, amores e dúvidas. com pitadas na dose certa de um humor inteligente e dramas sem apelação, todos os elementos se combinam de forma perfeita, é daqueles livros que a gente quer pegar e voltar a ler em qualquer oportunidade que tem.
at 11:19 4 comments
segunda-feira, novembro 12, 2007
a lua de papel
depois de uns bons meses lendo apenas as indicações bibliográficas para concursos, foi uma delícia devorar em um fim de semana a última aventura do comissário montalbano! policial dos bons, a lua de papel é o mais recente livro de andrea camilleri, escritor italiano obrigatório para os amantes do gênero. além da boa trama investigativa, o humor siciliano dá um tempero especial às histórias. as histórias no plural mesmo, porque minha recomendação não vale só pra esse livro: qualquer camilleri é genial!
at 07:54 0 comments

