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terça-feira, janeiro 22, 2008

Liberdade para o quê?

Liberdade não consiste em escolher nas prateleiras do supermercado

QUANDO JANTO fora, prefiro os restaurantes onde sou um cliente conhecido, porque, em princípio, eles aceitam com um sorriso meu comportamento, que é um pouco atípico: não gosto de ler o cardápio, peço o prato do qual estou a fim naquela noite, que ele esteja ou não no menu. Caso a cozinha não disponha dos ingredientes necessários, o maître e eu imaginamos um compromisso próximo de meus desejos.

Nota: às vezes os que lêem o cardápio do começo ao fim, à força de hesitar entre massas, risoto, carne ou peixe, acabam se entupindo de pão e couvert - e assim perdem o apetite.

Pensei nisso ao reler "O Paradoxo da Escolha, Por que Mais é Menos", de Barry Schwartz, recentemente traduzido em português (ed. Girafa). Schwartz constata, com razão, que a multiplicação das possibilidades de escolha (que é própria da sociedade de consumo) constitui, de fato, um fardo.

Exemplo: queremos comprar uma calça jeans e descobrimos que existem infinitos cortes, desbotamentos, preços etc. Ótimo, somos LIVRES PARA escolher entre centenas de jeans. Mas, de repente, eis que NÃO somos LIVRES DE uma tarefa, no fundo, fútil: a de encontrar a calça que nos veste melhor na perfeita relação custo/benefício.

Na hora de escolher um carro, uma faculdade, uma profissão, um país ou uma cidade em que morar, as escolhas possíveis são, hoje, incontáveis. Portanto seríamos mais livres, não é? Pode ser. Em compensação, temos a trabalhosa (e, às vezes, desanimadora) incumbência de escolher.

Schwartz opõe dois tipos subjetivos: os "maximizadores" e "os que se contentam com algo suficientemente bom". Os maximizadores querem absolutamente fazer a escolha certa; os outros sabem se satisfazer sem ter que alcançar a certeza de que fizeram o melhor negócio.

Ora, constata Schwartz com razão, o maximizador não é nunca feliz: ele é corroído pelo remorso e pela dúvida (será que examinou efetivamente todas as possibilidades?).

Schwartz chega a imaginar que a epidemia de depressão das últimas décadas tenha uma relação com a multiplicação das escolhas possíveis e, portanto, com a insatisfação crônica de nosso lado maximizador. Obviamente, os que sabem se satisfazer vivem melhor. Conclusão de Schwartz: o excesso de liberdade nem sempre é bom.

Tudo bem. Mas vamos aplicar a visão de Schwartz ao campo amoroso. É claro que, se a tradição nos obrigasse a nos casar com a moça escolhida pelos anciões de nossa aldeia, a vida amorosa seria mais fácil. A liberdade para se juntar com quem quisermos é, de fato, uma complicação: para ter a certeza de que Fulano é meu homem fatal, com quantos Sicranos deverei compará-lo?

Por outro lado, se adotarmos a sabedoria dos que sabem se contentar com o que lhes agrada, nossos parceiros e parceiras não vão gostar.

Em geral, preferimos ser amados por quem acha que somos a melhor escolha possível, em absoluto.

Ou seja, na vida amorosa, os maximizadores sofreriam como sempre, enquanto os que "se contentam" seriam detestados por parceiros e parceiras. Como fica? Pois é, talvez a vida amorosa seja um bom exemplo para descobrir os limites das idéias de Schwartz, porque, nela, a liberdade certamente não consiste em poder escolher o amado numa lista de pretendentes. Amar tem mais a ver com "encontrar" do que com "escolher".

O livro de Schwartz é ótimo e divertido sem contar que pode ajudar todas as pessoas que se inibem diante da multiplicidade dos possíveis. Mas Schwartz parte de um pressuposto, que está implícito desde seu primeiro exemplo (o dos jeans): ele considera a pluralidade das escolhas possíveis como o índice da liberdade. Quando constata que essa liberdade é fonte de tormentos, ele conclui que talvez seja melhor sermos menos livres e mais felizes.

Ora, a visão que Schwartz tem da liberdade é parasitada pelo próprio modelo do consumo, cujos impasses ele castiga.

Ser livre não significa poder escolher entre os objetos disponíveis nas prateleiras do supermercado; ser livre significa saber criar o que queremos e encontrá-lo, mesmo e sobretudo quando não está em lista alguma de liquidações e promoções. Certo, o mal-estar do maximizador é uma patologia da liberdade de escolha. Mas a liberdade de escolher entre as ofertas que estão nos cardápios é, por sua vez, uma deformação da verdadeira liberdade - a de inventar.

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(texto do psicanalista Contardo Calligaris, que recebi por email, gostei e escolhi publicar. fiquei curiosa pra ler o livro, mas acho que ainda preciso aprender a escolher menos afazeres, para que caibam no meu dia...)

sexta-feira, dezembro 21, 2007

"cada promessa é uma ameaça; cada perda, um encontro. dos medos nascem as coragens; e das dúvidas as certezas. os sonhos anunciam outra realidade possível, e os delírios, outra razão. somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. a identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia. nessa fé, fugitiva, eu creio. para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido, mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo."

(Eduardo Galeano)

quinta-feira, novembro 29, 2007

responsa

"não deixamos o mundo para os nossos filhos. na verdade, nós o pegamos emprestado deles."

meu irmão me disse essa frase há um tempo atrás, e eu achei bárbaro. lembrei dela hoje e resolvi registrar aqui. se alguem souber me dizer a autoria, agradeço demais, penso que essa pessoa deve ter dito mais coisas que valem a pena a gente ler...

quarta-feira, novembro 28, 2007

quem fala o que quer, espeto de pau!

"Queremos brasileiros melhor educados, e não liderados por gente que despreza a educação, a começar pela própria."
(FHC, ex-presidente do Brasil, durante o congresso do PSDB, na semana passada)

"Obviamente que se comparar a educação, a formação intelectual do Fernando Henrique Cardoso, ele tem muito mais educação do que eu. É verdade que ele tem mais anos de escolaridade. Mas é verdade que eu sei governar melhor do que ele."
(Lula, presidente do Brasil, em entrevista à TV Record, ontem)

sexta-feira, novembro 23, 2007

loteria

"Às vezes nós pensamos que as pessoas são como décimos da loteria: que estão aí para concretizar nossas absurdas ilusões."

(Isaac Monfort, personagem do livro A sombra do vento, de Carlos Ruiz Zafón)

talvez fosse mais impactante se essa fosse a quinta frase completa da página 161, mas é a 32ª da página 252, e mesmo sendo seguida de "– Isaac, com o devido respeito, o senhor bebeu como um gambá e não sabe o que diz.", a verdade é que é esse é o tipo de frase pra gente anotar no nosso caderninho como um lembrete para a vida. não só para deixarmos de depositar nossas absurdas ilusões nos outros, como também para lembrarmos que nós mesmos não somos décimos de loteria para ninguém...

quarta-feira, outubro 03, 2007

tá nervoso, vai pescar!

"Olha. Eu sou a pessoa menos adequada para falar desse assunto, até porque desconheço, não tem qualquer relação comigo. Não tenho a falar com isso, você vai encontrar outras pessoas mais qualificadas para falar sobre isso, querida. Eu fui governador em 2002 e 2006 e por estas campanhas eu respondo."

(Aécio Neves, em tom ríspido, ao ser questionado por jornalistas se teme que a investigação do tucanoduto mineiro respingue em sua carreira.)

Leia mais aqui.

terça-feira, outubro 02, 2007

ãrran...

"Não acho que o autor tenha pensado em mim. Não tenho nada a ver com a personagem. Trabalhei dez anos na TV Globo. Tenho uma história totalmente diferente [de Bebel]"

(Mônica Veloso, jornalista, mãe da filha de Renan Calheiros e capa da próxima "Playboy")

me engana que eu gosto. quem ganha a pensão que essa dona ganha e ainda aproveita a fama momentânea de uma crise política pra faturar mais algum posando pelada, não pode ser tão ingênua assim. nem pra achar que o autor não pensou nela, nem pra achar que trabalhar 10 anos na tv globo é "totalmente diferente" da história da bebel... pfff...